domingo, 25 de maio de 2008

Identidade Bourne



É muito comum atribuir à idade o fato de você mudar de opinião durante o percurso de sua vida.

A idade, no sentido de experiência de vida, por si só, não tem todo esse poder, além disso, deve existir mais algum detalhe que contribui para essas mudanças e isso, também, pode variar de pessoa para pessoa.

No que diz respeito a mim as mudanças foram muitos radicais. Foi, como dizia minha mãe, da água para o vinho.

Durante estes últimos 10 anos, abandonei todos os livros que eu li.Reneguei todas as músicas que eu ouvi, esqueci os poemas que,de cor, tinha na memória, é um rompimento solitário e muito dolorido. Ao contrário deste rompimento solitário o rompimento político é exposto ao mundo.É como uma declaração de guerra. Você leva alguns tiros e sai sangrando, mas em contrapartida carrega o orgulho de ter feito a coisa certa.

Comecei um vida nova em um mundo totalmente novo.

Da mesma forma que o Bourne procura sua identidade no filme e não encontra eu procuro a minha identidade, também, e, além disso, procuro uma resposta para essas mudanças e não encontro.

Algumas perguntas martelam minha cabeça.

O que me fez mudar tanto ?

Será que existe um elo que possa me ajudar a entender e responder essas perguntas ? E até que ponto, tudo que abandonei do meu passado foi, realmente, perdido ?

Finalizando com a pergunta que julgo mais importante.

Em quantas pessoas será necessário me transformar, em toda a minha vida, para me encontrar, realmente ?

sábado, 24 de maio de 2008

Fulano conheceu Fulana


Fulano conheceu Fulana há 10 anos. Ela era manicure no mesmo salão de beleza que a mãe de fulano freqüentava. Foi amor à primeira vista. Ela, romântica. Ele, falastrão. Ela, simples.Ele, simples.Ela, baixinha.Ele, baixinho.Quando a assunto vem à tona, Fulano se envergonha e diz que não gosta de falar nisso.Não assume, mas foi o momento mais feliz de toda a sua vida.Nenhuma garota agüentou o Fulano por muito tempo.A vontade de ser diferente de tudo que está por aí, transformou o Fulano em um cara chato.E essa chatice não fazia sucesso com as mulheres.Assim como nossos políticos, nossos homens de marketing, assim como nossos artistas desde o barroco, Fulano tinha a mania de falar as mesmas coisas só que de forma diferente.
Tão diferente que até hoje Fulana não entende metade das palavras que Fu
lano diz.

Reparação


Demorei 100 páginas para entrar no clima do romance.Nestas primeiras 100 páginas o livro me pareceu inverossímil e cansativo. Mas, superando essa fase e o romance acontece. Supense, ódio, casualidade, encontro, desencontro e o mais importante : A reparação.

Todos estes ingredientes tornaram o livro de IAN MCEWAN uma obra prima.E porque não dizer um clássico da literatura moderna. O autor é vencedor de vários prêmios e um dos maiores escritores de sua geração.Infuenciado por Saul Bellow, Updike e Philip Roth. Vale a pena.

Espero logo poder ver o filme.O diretor Joe Wright é o mesmo de Orgulho e Preconceito que eu adorei.A atriz Keira Knightley, também , é a mesma.

Uma casa para o Sr Biswas


Eu li 3 ou 4 livros deste autor.Uma casa para o Sr. Biswas foi o que mais me impressionou. Realmente uma maravilha que se lê entre risos, angustias e sofrimento. Descreve a obsessão do Sr. Biswas em possuir a sua própria casa, mas tendo com pano de fundo a cultura hindu suas tradições e sua ocidentalização. Livro recomendável para quem quer ter contato com esse que é Prêmio Nobel de literatura.

A Milésima Segunda noite da Avenida Paulista

Que bela época aquela.

Depois de ler este livro fiquei romanceando o passado do jornalismo brasileiro.Fiquei com inveja da liberdade que eles teriam alguns anos atrás.
Joel, Nelson Rodrigues, Ari Barroso, Stanislau Ponte Preta, Paulo Francis, Samuel Wainer. Eram todos homens fantásticos, todos politicamente incorretos.Todos com muita personalidade. E diziam e faziam o que sua consciência pedia.

A personalidade do Joel era tão forte que ele recebeu o apelido de "A víbora " do próprio patrão o Assis Chateaubriand.

Homem forte e de caráter.Jornalista sério, inteligente e culto.

São saborosas as matérias compiladas neste livro que se lê rapidamente.

Dei gargalhadas na madrugada lendo o livro que é uma benção. Joel Silveira morreu em 15/08/2007 em seu apartamento em Copacabana.Tinha câncer, mas se negou a tomar a medicação.

Descanse em paz.

AVerdade das Mentiras.



Nestes tempos modernos e complicados se discuti, cada vez mais, o valor da literatura.
A literatura tem perdido espaço nestes tempos para os livros de técnicos, cientistas, sociólogos.O homem moderno quer ter idéias e saber as opiniões de todos e sobre tudo relegando ao romances menos importância.
Mario Vargas LLosa discorda disto e elenca em seus argumentos vários romances que fizeram a história do homem ocidental. O próprio título do livro responde essa questão. Grande livro para quem duvida que o romance já se esgotou. Quem acredita que o romance acabou tem que ler.E quem acredita que o romance ainda vive deve ler com mais prazer.

A balconista.



Dois casamentos desfeito. A contragosto é verdade. Dois filhos para criar. Freguentou pouco a escola e por isso dava graças a Deus pelo emprego de balconista que possuía.Na verdade o termo balconista seria um exagero, talvez, o correto seria dizer empacotadora, mas esse termo ela evitava.Vaidade todo mundo tem.No seu primeiro casamento o marido desapareceu depois de um ano de casada e deixou um filho de meses.Ela nunca mais teve notícias.

No segundo casamento o marido era um alcoólatra que quando bebia terminava a noite sempre nas drogas.Este nunca conseguiu um emprego fixo e só culpava o governo pela sua infelicidade.Nunca trouxe um dinheiro para casa.

Este traste tinha o hábito de pedir dinheiro emprestado para os amigos desavisados.Dívida que nunca pagava.O povo se apiedava quando ele inventava doença na família, nas crianças e outras coisas, mas com o dinheiro em mãos o caminho era a boêmia -se é que se pode chamar de boemia um desqualificado que bebe tudo o que tem, cheira crack e amanhece deitado na sarjeta – no centro da cidade.

Nesta região era impossível andar pelas ruas sem encontrar todo tipo de pedintes.Homens velhos, homem moços, mulheres grávidas e, principalmente, crianças a serviço de adultos inescrupulosos.Uma horda de maltrapilhos que defendem seus território e seus trocados na mais perfeita harmonia e divisão hierárquica, todos, sem exceção, entupiam-se de drogas e bebidas.

A balconista apaixonada ou sem outra opção na vida, aceitava a sua miséria sem reclamação, nunca desferiu uma única palavra mais dura ao marido.Com o seu salário sustentava a casa e , ainda, de quebra dava alguns trocados para o marido se esbaldar.

Este desapareceu, só que por 2 anos.Passados 2 anos, exatamente, ficamos sabendo que ele havia sido atropelado na beira da estrada e falecido.Foi lavrado boletim de ocorrência e tudo ficou certinho.

Um soldado.




Alguns cabelos grisalhos não eram suficientes para camuflar a sua careca reluzente.Careca que quando transpirava era capaz de iluminar um quarto escuro. Com uma barriga saliente e de estatura baixa compunha o personagem que mais representava o Partido naquela região.Com uma oratória eloqüente e uma voz alta fazia discursos inflamados que agitava a platéia.Sem trabalhar a muito tempo, com filho pequeno e separado de sua mulher, via na eleição do Partido a única razão de sua vida e a única possibilidade de resolver a sua situação financeira.Sonhava com uma cesta básica e mais um vale transporte, além é claro, do cargo de cabo eleitoral.Isso tudo era para aliviar a suas necessidades básicas.Sua ambição não se limitava a isso.Apesar de possuir uma saúde de ferro e de aparentar mais jovem que a sua idade real o trabalho nunca fez parte de seu projeto de vida.Ser um líder era a sua ambição.E o Brasil carecia de gente de boas intenções.

Parece, mas não é.



Amigos felizes se têm aos montes. Grana no bolso, carro do ano. Postura ética para dar e vender, assim como aquele locutor de rádio que faz campanha pela ética, mas rouba notícias da internet sem dar as devidas fontes.

O marketing domina o mundo e torna a gente boba. O Marketing diz que não basta ser honesto tem que parecer honesto.Conheço muita gente desonesta que parece honesta.E muita gente honesta que parece desonesto.Uma pena.

Fulano se irrita quando um sicrano se apresenta na televisão como um exemplo em ética e defensor do povo. Diz sempre que é hora de fugir. Cuidar do bolso, pois o argumento é forte e o processo é lento.Este rouba-lhe a carteira e a esperança.

No Bar




Na calçada do bar, despontava uma briga. Fulano não se meteu.Aquela briga não era sua.Não era de ninguém.

Aposentados e desempregados de um lado, empregados do comércio e funcionários públicos em outro.Uma arruaça tamanha. Era todos os dias a mesma coisa.O despossuídos de hoje zombando dos despossuídos de amanhã.Os maltrapilhos xingando os mal ajambrados.

O Brasil é uma merda – pensou o Fulano – O povo não é solução para nada. Precisamos de uma elite séria, nos padrões morais do início do século 19 para restabelecer a ordem e os bons costumes, seria a única solução para o País. Neste momento Fulano sonhava com a Monarquia.Achou interessante a possibilidade de se ter um Rei com valores morais para onde o povo pudesse se espelhar.Ter um rei assim cpomo o Rei Juan Carlos da Espanha ou a Rainha Elizabeth da Inglaterra.O nosso povo, sem espelho, mergulha na mais profunda ignorância sem ter em quem se apegar.

O disparate brasileiro deixava Fulano irritado. Neste Brasil de 8 ou 80, vivia dizendo quando se tem se tem, tem tudo e não se observa um limite.E quando falta, a pobreza também não tem limite.

Fulano vivia brincando com os amigos dizendo: - precisamos aprovar uma lei onde até a pobreza teria limite. Morria de rir com a idéia de se poder acabar com a pobreza por decreto.

A briga havia terminado e outra estava prestes a iniciar. Quem começou a primeira e quem apenas se defendeu era o motivo para outra briga. É sempre assim quando o álcool é o único refugio das neuroses do cidadão.

Fulano



Fulano abaixou as calças e sentou na bacia. Olhou para o teto, olhou para os azulejos com desenhos verdes e simétricos.Na mente repassou o dia em 2 minutos.

Seu dia havia sido cansativo como todos os outros de sua vida.

Nestes dois minutos Fulano concluiu que fez tudo errado na vida.

Trocou aquele emprego de funcionário público cansativo, mas que hoje poderia ser um bom negócio, pelo ideal do comércio.Sua vocação. Hoje se arrepende.

Como levar a vida neste país subdesenvolvido e a mercê de incautos e populistas? Como manter o sonho de sucesso acesso se a maioria prefere o ostracismo e o populismo?

Pensou na mulher que é sua e para a vida inteira, pensou no filho que não sabe educar corretamente e pensou em outros que como ele sofre do peso de uma vida inútil.

Os caminhos são dados a todos e a opção é sua.

Com semblante caído, rosto suado e sob efeito da bebida só lhe restava dar a descarga, limpar a bunda, subir as calças e sair daquela depressão.

Nada melhor que um dia após o outro, nada como uma família para dar ao Fulano as forças necessárias para a luta.