quarta-feira, 30 de julho de 2008

Camilo



Seu Camilo tinha 60 anos e já era surdo. Pediu emprego. Eu neguei. Pediu de novo. Eu neguei de novo. Fiquei sabendo que ele dormia em um quarto com mais sete pessoas. Fiquei com dó. Depois fiquei sabendo que ele só dormia de madrugada, depois que o último dos sete pegasse no sono. Os amigos de quarto eram barra pesada e ele tinha medo que o pior acontecesse.

Que pior é esse? – eu perguntei – Ele dizia – O pior, oras.

Falei com o meu patrão, naquela época era fácil, de pronto admiti o Camilo que muito tempo trabalhou comigo. Trabalhávamos a noite. E a noite era mais difícil. Às vezes ficávamos sem janta, quando o ofício exigia, às vezes ficávamos no frio quando o ofício exigia, às vezes ficávamos na chuva quando o ofício exigia. E às vezes ficávamos sem janta, no frio e na chuva quando o filha da puta do cliente exigia. Era um trabalho duro, que hoje tem um nome pomposo, logística, mas naquele tempo tinha um nome menos atrativo. Era o famoso Ajudante de caminhão de Mudança ou de entregas à domicílio. Tudo muito bem recompensado, claro.

Camilo queria recuperar o tempo perdido, perdido não sei onde. Trabalhava e guardava tudo o que ganhava e eu, ao contrário, gastava com cerveja e cachaça. Camilo não bebia e depois de alguns anos acabou se convertendo em uma religião que nem sei o nome.

Camilo estava muito velho, apesar de render no trabalho mais que muito jovens, eu comecei a me preocupar com a sua saúde. Nosso trabalho era pesado e cansativo. Estava na dúvida sobre qual procedimento adotar com relação a ele, pois já imaginava a sua reação, mas logo me convenci depois de ouvir alguns comentários maldosos do tipo: Ta explorando o velho, hein.Ou, assim :- A escravidão acabou.

Entrei em neura. Comecei a sonhar que o Camilo morria em minhas mãos trabalhando à noite. Que seria o responsável. O que diria para seus familiares? O que eu diria para os seus filhos ? Bem, enfim, tirei o Camilo da noite. Proibi que fizesse hora extra.

Ele, como imaginava, considerou isso com uma punhalada, uma traição e apesar de várias tentativas nunca mais me considerou seu amigo. Trabalhou até se aposentar e nunca mais me dirigiu a palavra.

Camilo era do estado de Minas Gerais e trabalhou muitos anos em uma famosa construtora que faliu.Camilo me disse que o pior dia de sua vida foi quando foi despedido.Perdeu o rumo.Perdeu o norte.Recebeu seus direitos, fez alguns investimentos que não deu certo.Nada sabia fazer.E tudo que fazia dava errado.Abandonou a mulher, os filhos já crescido quase nada podia ajudar, não pensou duas vezes, pegou o ônibus e veio para São Paulo se aventurar.Começou a viver a sua segunda vida.Tinha 60 anos.Espero que tenha sido feliz.

domingo, 27 de julho de 2008

Família Borges








A família Borges era um exemplo.Pai, Mãe, oito filhos, todos se relacionando muito bem, na maior paz de Deus.E como toda família que se preze tem uma Mãe disciplinadora aqui não era diferente.Essa Mãe era a verdadeira comandate em Chefe de um exército em guerra.Sempre sob os seus olhares a Mãe coordenava tudo dentro de casa e distribuía para cada um ,igualitariamente, algum tipo de afazeres.Lavar louça, limpar o chão, fazer compras, recolher roupas no varal, colocar arroz no fogo, dar banho no menor, arrumar as camas e etc.Todos recebiam as ordens como uma missão militar.

8 filhos já era um exagero para a época e provocava comentários maledicentes das vizinhas.

- Família de coelhos.

- Que nada, parecem ratos.

-Eu cotava fora.

-Será que nunca irão parar ?

-Haja arroz e feijão nesta casa.



Como se alguém pagasse a conta da mercearia para a família Borges.

A Mãe, se ouvia estes comentários, fazia de conta que não era com ela e tocava sua vida feliz e sempre pra frente.

E aqui devo fazer uma confidência, a verdade é que a Mãe tinha muita saúde e era uma mulher bonita , hoje, distante dos fatos, imagino, que não passava dos 35 anos.Foi nesta época que percebi o que era uma mulher de verdade e perdi horas olhando o infinito.

Gostava de freqüentar aquela casa mais do que gostava da minha própria casa.Aquilo era totalmente diferente de tudo que eu conhecia.Era uma casa movimentada, mas organizada.Havia harmonia naquela bagunça de gente se acotovelando e falando todos ao mesmo tempo..

Os meninos dormiam no porão.As meninas nos quartos, no andar de cima, no qual não tínhamos acesso.O porão não era um porão qualquer.Era uma porão com pé direito alto muito iluminado e arejado.As paredes brancas a iluminarias davam um aspecto de hospital.Era lá que ficávamos tocando, conversando, cantando.

Na parede vários posteres de banda de rock, violão para toda parte, guitarras e etc.Era uma família muito musical.Eu ficava na bateria até o momento que uma criança não ia dormir.Ou um vizinho não reclamava.Adianto que era péssimo baterista.péssimo guitarrista, e péssimo cantando.

Havia, também, bolas de futebol e uniformes completos para jogar aos domingos.Quando o assunto é futebol poderia ficar aqui e escrever um livro.Campeonatos ganho em campo adversário.Erro de juiz que virou briga homérica.E até mesmo perda de um emprego porque fui defender o nosso time e joguei contra a empresa que trabalhava.Isso foi considerado alta traição pelo patrão e fui julgado e condenado no tribunal.se não ta contente a porta da rua é serventia da casa.Fui embora orgulhoso.Trair meus amigos jamais.Porra, mas tinha umas secretárias gostosas que eu nunca mais verei.

Alfredo, era o mais velho, deste pequeno trabalhava.Começou na feira, mas a noite freqüentava a escola.

Nos seus momentos de folga ficávamos ouvindo suas experiências, principalmente com as mulheres.Inventava cada caso que nem te conto.

Foi através de Alfredo que eu ouvi falar em computador pela primeira vez.

Alfredo, antenado, já trabalhava com isso. Era 1974 e o computador de uso doméstico só engatinhava nos EUA.

Estes momentos felizes ficaram na memória.Nunca mais vi aquela turma.Mudei de bairro.

Só voltei a falar sobre isso porque outro dia encontrei com um amigo que participou deste momento e me pôs a par dos últimos acontecimentos.

E sem rodeios que eu não gosto disso vou aos fatos.

A conclusão é a seguinte : O Pai dos meninos desandou a beber dando muito trabalho para a família e desestabilizando aquela harmonia que tanto gostava.

A Mãe completamente desgastada pelas crises de bebedeiras do marido se separou e casou com outro.As crianças racharam.Metade ficou com a mãe e a outra metade ficou do lado do pai.

Alfredo o mais velho virou um comerciante bem sucedido, mas teve um enfarte fulminante muito cedo, aos 40 anos.Morreu.O Luiz Soares, o segundo, morreu em conseqüência da AIDS e uso de drogas.As meninas casaram-se e foram morar distante uma das outras.

Logo depois disso faleceu a Mãe.Desgostosa da vida e infeliz no segundo casamento.

O Pai que criou todo o caso se curou da bebida e herdou com os dois filhos mais novos ( que pouco conheço porque eram bem pequenos na época) os negócios do falecido e hoje é um executivo de sucesso.

sábado, 26 de julho de 2008

Uma manhã com o Machadão. (Foto Stefano)



Hoje, sábado, dia 26de julho de 2008, fui ao Museu da língua portuguesa ver a amostra "Machado de Assis, mas este capítulo não é sério".

Cheguei às 11:00 horas e a fila era desanimadora, conforme você pode verificar na foto, depois fiquei sabendo que o ingresso era livre e por isso o tamanho da fila.

A amostra por si não me trouxe novidade.Com uma coisa aqui e outra ali o grosso eu já conhecia.

O que impressiona é constatar que a curiosidade do povo é ilimitada.O Povo enfrenta fila, e participa do evento com muita disposição.Quando o evento é bom e o preço é acessível o povo não abre mão de buscar conhecimento e sabedoria.

Se uma amostra dessas fizer 1 dúzia de novos leitores o dinheiro o investimento foi válido.