
A família Borges era um exemplo.Pai, Mãe, oito filhos, todos se relacionando muito bem, na maior paz de Deus.E como toda família que se preze tem uma Mãe disciplinadora aqui não era diferente.Essa Mãe era a verdadeira comandate em Chefe de um exército em guerra.Sempre sob os seus olhares a Mãe coordenava tudo dentro de casa e distribuía para cada um ,igualitariamente, algum tipo de afazeres.Lavar louça, limpar o chão, fazer compras, recolher roupas no varal, colocar arroz no fogo, dar banho no menor, arrumar as camas e etc.Todos recebiam as ordens como uma missão militar.
8 filhos já era um exagero para a época e provocava comentários maledicentes das vizinhas.
- Família de coelhos.
- Que nada, parecem ratos.
-Eu cotava fora.-Será que nunca irão parar ?
-Haja arroz e feijão nesta casa.
Como se alguém pagasse a conta da mercearia para a família Borges.
A Mãe, se ouvia estes comentários, fazia de conta que não era com ela e tocava sua vida feliz e sempre pra frente.
E aqui devo fazer uma confidência, a verdade é que a Mãe tinha muita saúde e era uma mulher bonita , hoje, distante dos fatos, imagino, que não passava dos 35 anos.Foi nesta época que percebi o que era uma mulher de verdade e perdi horas olhando o infinito.
Gostava de freqüentar aquela casa mais do que gostava da minha própria casa.Aquilo era totalmente diferente de tudo que eu conhecia.Era uma casa movimentada, mas organizada.Havia harmonia naquela bagunça de gente se acotovelando e falando todos ao mesmo tempo..
Os meninos dormiam no porão.As meninas nos quartos, no andar de cima, no qual não tínhamos acesso.O porão não era um porão qualquer.Era uma porão com pé direito alto muito iluminado e arejado.As paredes brancas a iluminarias davam um aspecto de hospital.Era lá que ficávamos tocando, conversando, cantando.
Na parede vários posteres de banda de rock, violão para toda parte, guitarras e etc.Era uma família muito musical.Eu ficava na bateria até o momento que uma criança não ia dormir.Ou um vizinho não reclamava.Adianto que era péssimo baterista.péssimo guitarrista, e péssimo cantando.
Havia, também, bolas de futebol e uniformes completos para jogar aos domingos.Quando o assunto é futebol poderia ficar aqui e escrever um livro.Campeonatos ganho em campo adversário.Erro de juiz que virou briga homérica.E até mesmo perda de um emprego porque fui defender o nosso time e joguei contra a empresa que trabalhava.Isso foi considerado alta traição pelo patrão e fui julgado e condenado no tribunal.se não ta contente a porta da rua é serventia da casa.Fui embora orgulhoso.Trair meus amigos jamais.Porra, mas tinha umas secretárias gostosas que eu nunca mais verei.
Alfredo, era o mais velho, deste pequeno trabalhava.Começou na feira, mas a noite freqüentava a escola.
Nos seus momentos de folga ficávamos ouvindo suas experiências, principalmente com as mulheres.Inventava cada caso que nem te conto.
Foi através de Alfredo que eu ouvi falar em computador pela primeira vez.
Alfredo, antenado, já trabalhava com isso. Era 1974 e o computador de uso doméstico só engatinhava nos EUA.
Estes momentos felizes ficaram na memória.Nunca mais vi aquela turma.Mudei de bairro.
Só voltei a falar sobre isso porque outro dia encontrei com um amigo que participou deste momento e me pôs a par dos últimos acontecimentos.
E sem rodeios que eu não gosto disso vou aos fatos.
A conclusão é a seguinte : O Pai dos meninos desandou a beber dando muito trabalho para a família e desestabilizando aquela harmonia que tanto gostava.
A Mãe completamente desgastada pelas crises de bebedeiras do marido se separou e casou com outro.As crianças racharam.Metade ficou com a mãe e a outra metade ficou do lado do pai.
Alfredo o mais velho virou um comerciante bem sucedido, mas teve um enfarte fulminante muito cedo, aos 40 anos.Morreu.O Luiz Soares, o segundo, morreu em conseqüência da AIDS e uso de drogas.As meninas casaram-se e foram morar distante uma das outras.
Logo depois disso faleceu a Mãe.Desgostosa da vida e infeliz no segundo casamento.
O Pai que criou todo o caso se curou da bebida e herdou com os dois filhos mais novos ( que pouco conheço porque eram bem pequenos na época) os negócios do falecido e hoje é um executivo de sucesso.

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