
“...em cada episódio, ainda que tão pouco realista em seu encadeamento, revive-se dentro de si um desejo que é o de cada um de nós : compreender e dominar o mundo pelo saber.”
Stéphanie Dord-Crouslé – Critica especialista em Flaubert
Acabei de ler “Bouvard e Pécuchet “de Gustave Flaubert.Parece neurótico, mas ao término fiquei com a mesma sensação de quando terminei o livro “O homem sem Qualidades “do Robert Musil.
Vi nas duas obras algumas semelhanças.
Primeira semelhança, obra de grande fôlego intelectual.
Segunda, as duas foram editadas postumamente.
Terceira, tanto Musil como Flaubert dedicaram uma vida ao livro.
E o mais importante é que são obras que poderiam ser escritas hoje.São obras inacabadas e que se completam a toda hora.
Tanto um livro como o outro tem como pano de fundo a ciência moderna, o homem moderno e toda a sua diversidade. Nos levando a conclusão que toda a infinidade de opção, seja, na ciência, filosofia, e cultura ocidental deixam o homem sem parâmetro para uma decisão sensata. ( Olha que interessante, isso pode nos levar a outro livro “O homem Massa “de Ortega.Mas isso é outra história.)
Depois de 40 anos e mais de 1500 livros consumidos Flaubert cria dois personagens que tem como profissão a atividade de copista. Desconsolados com a vida que levam resolvem juntar toda a suas economias e se mudam para uma fazenda na Normandia.Chegando lá transformam sua casa em uma imensa Biblioteca com vários livros e muitos manuais.
É o que sempre sonhavam. Através dos livros e do conhecimento construir uma vida de saber.
Ledo engano. E muita desilusão.
O tempo vai passando e eles alternam seus interesses.
Os manuais de jardinagem se contradizem, então passamos para a agricultura, o mesmo acontece com a agricultura, passamos para química, depois medicina, depois astronomia, sempre a procura de uma resposta que nunca encontram. Resposta para se viver uma vida linear e definitiva.
Logo passam à arqueologia, história, literatura, política, higiene, magnetismo, religião e nada de encontrar.
Por último a definitiva frustração.Apesar de toda dedicação e de todo conhecimento não conseguiram êxito na tentativa de educar 2 crianças.Crianças cujo pai estava preso e a mãe morta.As crianças arredias não se dobraram ao convívio familiar.
Flaubert faz uma crítica ao homem moderno, ironiza a ciência, o conhecimento enciclopédico e revoluciona seu romance na medida em que é um romance que foge aos padrões tradicionais. Um romance filosófico como já foi dito na orelha do livro.
Os personagens são descritos como dois idiotas, tatuzinhos, escreventes, mas na realidade eles procuram a verdade através dos livros custe o que custar e não encontram, pois os manuais da ciência, da religião e tudo o mais são insuficiente.
O retorno à profissão de copista é a única solução para os dois.
Existem momentos hilários e de profundo constrangimento no livro.
Olhando o mundo de hoje e as dúvidas entre políticos, economistas, psicólogos acredito que o livro ainda não foi compreendido e ruminado totalmente.
Vamos ler Flaubert.
