domingo, 10 de maio de 2009
Literatura
Passei minha vida colecionando livros, comprando livros e, principalmente, lendo livros.É um hábito, um vício e um prazer.Tenho muita curiosidade e quero entender o mundo, mas quanto mais eu leio, mais eu preciso ler. Ultimamente as pessoas estão deixando o romances de lado a procura de livros que prometem respostas para tudo.Verdadeiros manuais.Ledo engano.Nada mais humano e real que os grandes clássicos da literatura universal.
Meu avô vestiu-se para morrer.
Meu avô abandonou sua terra natal, Zagreb, na Croácia.Ninguém sabe porque abandonou sua aldeia , suas ruas, seus amigos e seus familiares.
Das poucas vezes que falou sobre o assunto era evidente que sentia saudade.
Antes de se estabelecer no Brasil passou pela Argentina, Chile e Uruguai.
Meu avô era um homem bom, apesar de ter tentado matar minha avó milhares de vezes.
Chegava bêbado, todas as noites, falando palavras em croata e português.Blasfemava contra Deus e de faca na mão, corria atrás de mim e da minha avó.Cambaleava e quase não parava em pé.Nós fugíamos e mais uma vez éramos obrigados a dormir no vizinho.A vizinhança toda escutava os berros do meu avô , mas da boca da minha avó nada saberiam.Ela não reclamava e nada comentava.Era como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Todos os sábados, pela manhã, meu avô me esperava sentado em seu banco de madeira que ele mesmo fez, embaixo de uma árvore frondosa, que ele mesmo plantou, em frente de sua bela casa, em um bairro de classe média , que ele mesmo construiu.
Era uma doce pessoa, pegava-me no colo, comprava-me doces, levava-me aos passeios mais bonitos.Minha mãe sempre dizia que meu avô me adorava e seria incapaz de me fazer mal.
Porém, toda a noite era a mesma ladainha.Bebia, blasfemava, misturava croata com português e corria atrás de minha avó.Tocava fogo no colchão.Urinava no sofá.Proibia qualquer um de entrar em casa.Inclusive os filhos.
Dominado pelas lembranças do passado.Dominado pelas lembranças da Guerra.Dominado pela lembrança da fome e, talvez, de um amor perdido, meu avô blasfemava e falava sozinho como se houvesse um espírito ao seu lado.
E no outro dia, caminhava horas de um canto para outro da casa.Cabisbaixo, sem emoção, sem reação, tomado pela vergonha e depressão.Sem coragem para nada.
Eu, aos nove anos de idade, não entendia a razão de tanta fúria.E ,ainda, não conhecia os efeitos da bebida.
Outro detalhe que me lembro é que meu avô vivia me contando histórias estranhas.
Meu avô não tinha o dedo indicador.
Minha avó não tinha o dedo indicador.
E certa vez me contou que comeu o próprio dedo para saciar a fome quando, em uma viagem longa de navio, faltou comida.
E outra vez, se contradizendo, me disse, categoricamente, que foi pego roubando uma galinha em sua terra.Lá, a pena máxima, era a perda dos dedos para todos os ladrões de galinha.
Será verdade ? Nunca vou saber.
Adorava meu avô.Um homem de mais de 1,80 metro de altura e olhos azuis.
A única vez que meu avô não bebeu foi em um domingo do ano de 1974.Ele estava com 72 anos.Ás 6:00 horas se levantou.Tomou banho, fez a barba, vestiu um terno preto com camisa branca social.Sentiu uma indisposição.Voltou para a cama e morreu.
Enfarte fulminante.
Meu avô vestiu-se para morrer.O único trabalho foi arrastá-lo até o caixão.
Minha avó chorou muito.Eu chorei muito.
Minha avó entrou em um eterno luto.E mandou rezar missa todos os anos.
Ninguém nunca mais comentou que meu avô, depois de beber, ficava agressivo e queria matar a minha avó.
Das poucas vezes que falou sobre o assunto era evidente que sentia saudade.
Antes de se estabelecer no Brasil passou pela Argentina, Chile e Uruguai.
Meu avô era um homem bom, apesar de ter tentado matar minha avó milhares de vezes.
Chegava bêbado, todas as noites, falando palavras em croata e português.Blasfemava contra Deus e de faca na mão, corria atrás de mim e da minha avó.Cambaleava e quase não parava em pé.Nós fugíamos e mais uma vez éramos obrigados a dormir no vizinho.A vizinhança toda escutava os berros do meu avô , mas da boca da minha avó nada saberiam.Ela não reclamava e nada comentava.Era como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Todos os sábados, pela manhã, meu avô me esperava sentado em seu banco de madeira que ele mesmo fez, embaixo de uma árvore frondosa, que ele mesmo plantou, em frente de sua bela casa, em um bairro de classe média , que ele mesmo construiu.
Era uma doce pessoa, pegava-me no colo, comprava-me doces, levava-me aos passeios mais bonitos.Minha mãe sempre dizia que meu avô me adorava e seria incapaz de me fazer mal.
Porém, toda a noite era a mesma ladainha.Bebia, blasfemava, misturava croata com português e corria atrás de minha avó.Tocava fogo no colchão.Urinava no sofá.Proibia qualquer um de entrar em casa.Inclusive os filhos.
Dominado pelas lembranças do passado.Dominado pelas lembranças da Guerra.Dominado pela lembrança da fome e, talvez, de um amor perdido, meu avô blasfemava e falava sozinho como se houvesse um espírito ao seu lado.
E no outro dia, caminhava horas de um canto para outro da casa.Cabisbaixo, sem emoção, sem reação, tomado pela vergonha e depressão.Sem coragem para nada.
Eu, aos nove anos de idade, não entendia a razão de tanta fúria.E ,ainda, não conhecia os efeitos da bebida.
Outro detalhe que me lembro é que meu avô vivia me contando histórias estranhas.
Meu avô não tinha o dedo indicador.
Minha avó não tinha o dedo indicador.
E certa vez me contou que comeu o próprio dedo para saciar a fome quando, em uma viagem longa de navio, faltou comida.
E outra vez, se contradizendo, me disse, categoricamente, que foi pego roubando uma galinha em sua terra.Lá, a pena máxima, era a perda dos dedos para todos os ladrões de galinha.
Será verdade ? Nunca vou saber.
Adorava meu avô.Um homem de mais de 1,80 metro de altura e olhos azuis.
A única vez que meu avô não bebeu foi em um domingo do ano de 1974.Ele estava com 72 anos.Ás 6:00 horas se levantou.Tomou banho, fez a barba, vestiu um terno preto com camisa branca social.Sentiu uma indisposição.Voltou para a cama e morreu.
Enfarte fulminante.
Meu avô vestiu-se para morrer.O único trabalho foi arrastá-lo até o caixão.
Minha avó chorou muito.Eu chorei muito.
Minha avó entrou em um eterno luto.E mandou rezar missa todos os anos.
Ninguém nunca mais comentou que meu avô, depois de beber, ficava agressivo e queria matar a minha avó.
Uma rede na garagem.
Hoje foi um dia daqueles.Quando digo que foi " Um dia daqueles" quero dizer que foi um dia que deu tudo certo.OK ?
Sim, um dia maravilhoso.
Acordei antes do dia clarear.Adoro quando acordo antes do dia clarear.Tenho mais disposição e faço as coisas bem devagar como se o tempo fosse meu amigo. Quando acordo bem cedo nunca deixo de fazer o que tenho que fazer e quase sempre sobra tempo.
Em jejum bebi 1/2 litro de água.Dizem que faz muito bem para a saúde beber água pela manhã e em jejum, mas eu não pensei nisto, não.Bebi 1/2 litro de água porque estava com a garganta seca, muito seca.Fiz aquela cirurgia do septo, mas continuo respirando pela boca.
Fiz o melhor café de minha vida e estou falando sério, pois faço café todo dia e sempre é detestável, hoje foi um milagre, mastiguei a melhor torrada deste mundo.Comi aveia em grãos e 12 nozes do Pará.Comi, também, 1/2 maçã verde.
Resolvi não ir trabalhar.O sol está lindo, o céu muito azul.Estendi uma rede na garagem da minha casa e fiquei horas e horas lendo meus livros.Ninguém sabia que eu estava ali e , pior, todos esperavam que eu estivesse em outro lugar.
Uma rede estendida na garagem pareceu ser o maior dos prêmios.
Hoje foi um dia daqueles.
Sim, um dia maravilhoso.
Acordei antes do dia clarear.Adoro quando acordo antes do dia clarear.Tenho mais disposição e faço as coisas bem devagar como se o tempo fosse meu amigo. Quando acordo bem cedo nunca deixo de fazer o que tenho que fazer e quase sempre sobra tempo.
Em jejum bebi 1/2 litro de água.Dizem que faz muito bem para a saúde beber água pela manhã e em jejum, mas eu não pensei nisto, não.Bebi 1/2 litro de água porque estava com a garganta seca, muito seca.Fiz aquela cirurgia do septo, mas continuo respirando pela boca.
Fiz o melhor café de minha vida e estou falando sério, pois faço café todo dia e sempre é detestável, hoje foi um milagre, mastiguei a melhor torrada deste mundo.Comi aveia em grãos e 12 nozes do Pará.Comi, também, 1/2 maçã verde.
Resolvi não ir trabalhar.O sol está lindo, o céu muito azul.Estendi uma rede na garagem da minha casa e fiquei horas e horas lendo meus livros.Ninguém sabia que eu estava ali e , pior, todos esperavam que eu estivesse em outro lugar.
Uma rede estendida na garagem pareceu ser o maior dos prêmios.
Hoje foi um dia daqueles.
sábado, 9 de maio de 2009
INSIGHT
Outro dia eu ouvi uma celebridade dizer que dormia 3 horas por noite e sentia-se disposto durante o dia.Eu morri de inveja.
Foi neste dia e ali em frente ao caixa do Carrefour Limão que me dei conta da minha insignificância... sabe.... aquele insight inteligente que todos nós temos uma vez na vida...o meu foi ali, parado, sem forças para segurar 1 kilo de batatas, uma dúzia de limão e uma baguete.Dormia em pé.As minhas noites tão tumultuadas entre insônia e pesadelos estavam me transformando em um Zumbi, incapaz de reagir ao destino que a vida me impunha.
Na noite passada às 3 horas da madrugada o meu sono sumiu, escafedeu, acordei com o estômago vazio e sentia tanto frio que tinha câimbras nas pernas .Coisa de louco, mas nada de estranho... foi uma noite igual as outras onde a consciência te assombra trazendo o maldito passado para deitar ao seu lado...fazendo você cagar de medo.
Depois que meu amigo Luiz teve um AVC, um maldito AVC, que lhe deixou na cama torto, e quase morto, um morto sem velório e sem caixão.Depois disso eu não faço outra coisa a não ser pensar nesta maldita doença.Acordo a noite, nesta pocilga, lamentando todos os cigarros que fumei, todas as bebidas que bebi, e todas as mulheres que trepei , condeno todos que conheciam essa doença, mas que nada me disseram deixando eu me arriscar na ignorância.Ou era melhor não saber de nada e ficar aleijado em paz ? E se agora eu tiver um AVC o que vai acontecer.Quem vai me rezar um terço, me dar banho e me acariciar quando estiver na cama ?
Depois de rezar muito , contorcido na cama, assustado, olhos arregalados como se estivesse visto o Satanás, entro no sono para minutos depois acordar novamente.Levanto-me da cama bato três vezes com a cabeça na parede e esmurro o azulejo branco do meu banheiro.
Outro dia uma campainha intermitente tocava de hora em hora, ou será de minuto em minuto ? Levantei e procurei o maldito toque. Parecia toque de um celular, mas eu não tenho celular, mas o fdp do toque vinha de longe, tapei as janelas com trapos , e o barulho parecia mais nítido.Coloquei a cabeça embaixo do travesseiro, mas o toque continuou nítido.Fui no armário e peguei a garrafa de cachaça, quem sabe tomando umas doses eu não relaxo e durmo em paz, mas quando me apareceu a assombração da hipertensão e do AVC, desisti de beber. A verdade é que eu sempre fui covarde.O toque da campainha está aí para tripudiar da minha fraqueza de caráter.
Tem noites que o sonhos são tranquilos, sonhos com paisagem bucólica da Europa, Castelos Escoceses, Penhascos Franceses, Normandos, geleiras do leste europeu. Nestes sonhos eu tenho o completo domínio da arte de voar.Nunca cheguei a aterrissar, mais nunca cheguei a me esborrachar no chão.Desapareço no infinito.
Se eu não ficasse tonto durante o dia, tentaria traduzir os meus sonhos e escreveria um romance sobre essa merda toda.Tenho a impressão que os sonhos e a alucinações trazem a verdade sobre minha vida.
Em uma cena hilária me vejo mandando ecologistas, juízes, políticos à puta que o pariu.E vejo o título do meu livro “ Vão tomar no Cu” na prateleira de uma grande livraria de São Paulo ao lado do livro mais vendido do ano.Budapeste.
Seria muito legal ver meu livro ao lado daquela bosta de Budapeste.Mesmo que seja um sonho. Né..,não ??
Foi neste dia e ali em frente ao caixa do Carrefour Limão que me dei conta da minha insignificância... sabe.... aquele insight inteligente que todos nós temos uma vez na vida...o meu foi ali, parado, sem forças para segurar 1 kilo de batatas, uma dúzia de limão e uma baguete.Dormia em pé.As minhas noites tão tumultuadas entre insônia e pesadelos estavam me transformando em um Zumbi, incapaz de reagir ao destino que a vida me impunha.
Na noite passada às 3 horas da madrugada o meu sono sumiu, escafedeu, acordei com o estômago vazio e sentia tanto frio que tinha câimbras nas pernas .Coisa de louco, mas nada de estranho... foi uma noite igual as outras onde a consciência te assombra trazendo o maldito passado para deitar ao seu lado...fazendo você cagar de medo.
Depois que meu amigo Luiz teve um AVC, um maldito AVC, que lhe deixou na cama torto, e quase morto, um morto sem velório e sem caixão.Depois disso eu não faço outra coisa a não ser pensar nesta maldita doença.Acordo a noite, nesta pocilga, lamentando todos os cigarros que fumei, todas as bebidas que bebi, e todas as mulheres que trepei , condeno todos que conheciam essa doença, mas que nada me disseram deixando eu me arriscar na ignorância.Ou era melhor não saber de nada e ficar aleijado em paz ? E se agora eu tiver um AVC o que vai acontecer.Quem vai me rezar um terço, me dar banho e me acariciar quando estiver na cama ?
Depois de rezar muito , contorcido na cama, assustado, olhos arregalados como se estivesse visto o Satanás, entro no sono para minutos depois acordar novamente.Levanto-me da cama bato três vezes com a cabeça na parede e esmurro o azulejo branco do meu banheiro.
Outro dia uma campainha intermitente tocava de hora em hora, ou será de minuto em minuto ? Levantei e procurei o maldito toque. Parecia toque de um celular, mas eu não tenho celular, mas o fdp do toque vinha de longe, tapei as janelas com trapos , e o barulho parecia mais nítido.Coloquei a cabeça embaixo do travesseiro, mas o toque continuou nítido.Fui no armário e peguei a garrafa de cachaça, quem sabe tomando umas doses eu não relaxo e durmo em paz, mas quando me apareceu a assombração da hipertensão e do AVC, desisti de beber. A verdade é que eu sempre fui covarde.O toque da campainha está aí para tripudiar da minha fraqueza de caráter.
Tem noites que o sonhos são tranquilos, sonhos com paisagem bucólica da Europa, Castelos Escoceses, Penhascos Franceses, Normandos, geleiras do leste europeu. Nestes sonhos eu tenho o completo domínio da arte de voar.Nunca cheguei a aterrissar, mais nunca cheguei a me esborrachar no chão.Desapareço no infinito.
Se eu não ficasse tonto durante o dia, tentaria traduzir os meus sonhos e escreveria um romance sobre essa merda toda.Tenho a impressão que os sonhos e a alucinações trazem a verdade sobre minha vida.
Em uma cena hilária me vejo mandando ecologistas, juízes, políticos à puta que o pariu.E vejo o título do meu livro “ Vão tomar no Cu” na prateleira de uma grande livraria de São Paulo ao lado do livro mais vendido do ano.Budapeste.
Seria muito legal ver meu livro ao lado daquela bosta de Budapeste.Mesmo que seja um sonho. Né..,não ??
Qual a profissão de seu pai ?
- Joãozinho onde você mora ? - Eu moro no Largo da Briga, fessora.
- Pedrinho sua mãe trabalha ? - Ela é Do Lar , fessora.
- Fernando, qual é a profissão de seu pai ?
- Fernando, qual é a profissão de seu pai ? - - Fernando...?
Emudeci, suava frio, a classe toda olhando.Nunca havia chamado tanta atenção. Éramos em 45 alunos , início de ano,sala lotada, e eu ali completamente travado, milésimos de segundos que mais parecem uma eternidade, pensava em fugir fazendo um buraco na parede de madeira da escola, de cor verde bandeira horrível, e correr pelo barrancos vizinhos até chegar em casa
Me mantive mudo, não respondi e não chorei, tive vergonha, e uma vontade de sair daquela merda o mais rápido possível ( tenho certeza que vem daí o meu medo paranóico de falar em público.Esse medo que se mantém em mim adulto e muito tempo depois do ocorrido ) travei, travado, travadão.
Depois de alguns meses quando por um motivo ou outro, didático ou não a professora me fazia a mesma pergunta eu sentia orgulho ao dizer que meu pai era funcionário público.Esse era meu diferencial entre as outras crianças.Era minha vingança particular contra aqueles brutamontes que me roubavam o lanche no recreio ou que me batiam no caminho da escola. Alguém conhece algo mais cruel que crianças ??
Ser funcionário público na década de 60 era um privilégio de poucos, significava muitas coisas como, por exemplo, ter salário em dia, abono das faltas, um emprego seguro.Sendo concursado ninguém mandaria meu pai embora, a não ser uma falta grave de conduta e isso nunca ocorreria com papai.
Nesta época vi muitas crianças chorando no banheiro,crianças que tinham pais ausentes, crianças que tinham pais alcoólatras, crianças criadas pelas mães sem pai nem na certidão de nascimento.Nunca entendi porque as professoras repetiam essa pergunta nas salas de aulas.Na nossa periferia ter um pai já era um grande começo de vida não importava quem ele fosse.
Bem, depois disso fiquei curioso, como será que meus filhos respondem a essa pergunta hoje em dia se eu mesmo não seio o que sou ?
Será que sentem orgulho do pai ?
- Pedrinho sua mãe trabalha ? - Ela é Do Lar , fessora.
- Fernando, qual é a profissão de seu pai ?
- Fernando, qual é a profissão de seu pai ? - - Fernando...?
Emudeci, suava frio, a classe toda olhando.Nunca havia chamado tanta atenção. Éramos em 45 alunos , início de ano,sala lotada, e eu ali completamente travado, milésimos de segundos que mais parecem uma eternidade, pensava em fugir fazendo um buraco na parede de madeira da escola, de cor verde bandeira horrível, e correr pelo barrancos vizinhos até chegar em casa
Me mantive mudo, não respondi e não chorei, tive vergonha, e uma vontade de sair daquela merda o mais rápido possível ( tenho certeza que vem daí o meu medo paranóico de falar em público.Esse medo que se mantém em mim adulto e muito tempo depois do ocorrido ) travei, travado, travadão.
Depois de alguns meses quando por um motivo ou outro, didático ou não a professora me fazia a mesma pergunta eu sentia orgulho ao dizer que meu pai era funcionário público.Esse era meu diferencial entre as outras crianças.Era minha vingança particular contra aqueles brutamontes que me roubavam o lanche no recreio ou que me batiam no caminho da escola. Alguém conhece algo mais cruel que crianças ??
Ser funcionário público na década de 60 era um privilégio de poucos, significava muitas coisas como, por exemplo, ter salário em dia, abono das faltas, um emprego seguro.Sendo concursado ninguém mandaria meu pai embora, a não ser uma falta grave de conduta e isso nunca ocorreria com papai.
Nesta época vi muitas crianças chorando no banheiro,crianças que tinham pais ausentes, crianças que tinham pais alcoólatras, crianças criadas pelas mães sem pai nem na certidão de nascimento.Nunca entendi porque as professoras repetiam essa pergunta nas salas de aulas.Na nossa periferia ter um pai já era um grande começo de vida não importava quem ele fosse.
Bem, depois disso fiquei curioso, como será que meus filhos respondem a essa pergunta hoje em dia se eu mesmo não seio o que sou ?
Será que sentem orgulho do pai ?
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