Meu avô abandonou sua terra natal, Zagreb, na Croácia.Ninguém sabe porque abandonou sua aldeia , suas ruas, seus amigos e seus familiares.
Das poucas vezes que falou sobre o assunto era evidente que sentia saudade.
Antes de se estabelecer no Brasil passou pela Argentina, Chile e Uruguai.
Meu avô era um homem bom, apesar de ter tentado matar minha avó milhares de vezes.
Chegava bêbado, todas as noites, falando palavras em croata e português.Blasfemava contra Deus e de faca na mão, corria atrás de mim e da minha avó.Cambaleava e quase não parava em pé.Nós fugíamos e mais uma vez éramos obrigados a dormir no vizinho.A vizinhança toda escutava os berros do meu avô , mas da boca da minha avó nada saberiam.Ela não reclamava e nada comentava.Era como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Todos os sábados, pela manhã, meu avô me esperava sentado em seu banco de madeira que ele mesmo fez, embaixo de uma árvore frondosa, que ele mesmo plantou, em frente de sua bela casa, em um bairro de classe média , que ele mesmo construiu.
Era uma doce pessoa, pegava-me no colo, comprava-me doces, levava-me aos passeios mais bonitos.Minha mãe sempre dizia que meu avô me adorava e seria incapaz de me fazer mal.
Porém, toda a noite era a mesma ladainha.Bebia, blasfemava, misturava croata com português e corria atrás de minha avó.Tocava fogo no colchão.Urinava no sofá.Proibia qualquer um de entrar em casa.Inclusive os filhos.
Dominado pelas lembranças do passado.Dominado pelas lembranças da Guerra.Dominado pela lembrança da fome e, talvez, de um amor perdido, meu avô blasfemava e falava sozinho como se houvesse um espírito ao seu lado.
E no outro dia, caminhava horas de um canto para outro da casa.Cabisbaixo, sem emoção, sem reação, tomado pela vergonha e depressão.Sem coragem para nada.
Eu, aos nove anos de idade, não entendia a razão de tanta fúria.E ,ainda, não conhecia os efeitos da bebida.
Outro detalhe que me lembro é que meu avô vivia me contando histórias estranhas.
Meu avô não tinha o dedo indicador.
Minha avó não tinha o dedo indicador.
E certa vez me contou que comeu o próprio dedo para saciar a fome quando, em uma viagem longa de navio, faltou comida.
E outra vez, se contradizendo, me disse, categoricamente, que foi pego roubando uma galinha em sua terra.Lá, a pena máxima, era a perda dos dedos para todos os ladrões de galinha.
Será verdade ? Nunca vou saber.
Adorava meu avô.Um homem de mais de 1,80 metro de altura e olhos azuis.
A única vez que meu avô não bebeu foi em um domingo do ano de 1974.Ele estava com 72 anos.Ás 6:00 horas se levantou.Tomou banho, fez a barba, vestiu um terno preto com camisa branca social.Sentiu uma indisposição.Voltou para a cama e morreu.
Enfarte fulminante.
Meu avô vestiu-se para morrer.O único trabalho foi arrastá-lo até o caixão.
Minha avó chorou muito.Eu chorei muito.
Minha avó entrou em um eterno luto.E mandou rezar missa todos os anos.
Ninguém nunca mais comentou que meu avô, depois de beber, ficava agressivo e queria matar a minha avó.
domingo, 10 de maio de 2009
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