sábado, 19 de novembro de 2011

Aniversário

Quantos anos eu ainda tenho de vida.
10, 20, 30 anos ??

Isso não é fácil saber.
Mas dizer que o que importa
É viver cada dia como se fosse o último
É chover no molhado
Além de ser muito difícil de ser alcançado.

Não me parece justo viver
Sem sonhar
E o futuro que me resta
é com saúde, dinheiro e aposentadoria plena.
E nunca morrer com gangrena.

Vida moderna

A vida moderna é engraçada.
Você acredita que tem tudo,
Mas na verdade não tem nada.

Pai

Tentando criar o filho
O pai deu exemplo de honestidade.
Tentando criar o filho
O pai ensinou ser austero e sério.
Tentando criar o filho
O pai lhe doou os livros e os cds.
Tentando criar o filho
O pai está criando o neto.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Guarda - Noturno

Estava distraído quando escutei o apito.
Estranhei...
Pensei que essa profissão fosse extinta.

Me recordo quando criança
Que só conseguia dormir
Depois que lá fora no meio da noite
Ouvia o apito do guarda-noturno.

Na minha inocência de criança
Era agradável saber
Que havia um homem que zelava pelo nosso sono.
Um homem de bicicleta e armado com um apito.
Que enfrentava o frio e a noite escura.
Que enfrentava o medo das sombras.
Que enfrentava ruídos estranhos.

Um guarda-noturno colocava ordem em um quarteirão.

Mas hoje tudo mudou.

Hoje é tempo de condomínio.
de empresas de segurança
das câmeras de vídeos sofisticadas.

Com toda essa tecnologia o guarda-noturno não existe mais.

Mal resolvida ficou a Paz.






Rever um amigo

Um dia desses
Revi um amigo
Que a muito não me visitava.
Aliás, pensava já morto.

Chegou em casa
Contou sua história triste e dramática
Que me cortou o coração.

Lhe pus uma mesa farta
Mas ele só se alimentou
De café com pão.

Ao se despedir
Me falou aos ouvidos.
Falou baixo, muito baixo.
Me pediu 200 pilas.

Não resisti a tentação
E ofereci tudo que podia.
Em forma de cortesia.
Sem cobrança, sem títulos de empréstimo
Sem compromissos.

Logo depois pegou um ônibus e partiu.
Saiu da mesma forma que surgiu.




Tudo deu certo

Como escrever versos quando tudo deu certo ?

Não choveu.
Ninguém morreu.
O sol está ardendo
E as crianças cuidam do jardim.

Como escrever versos quando todos se entendem
E quando não há nenhuma dor no coração ?

Como escrever versos quando até os cachorros da rua te reconhecem.
Mesmo chegando de madrugada e cambaleando de bêbado ?

Como escrever versos quando não há melancolia
Quando não existe rompimento ?

E aquela vida besta de outrora
hoje é remédio para todos os males.

Será que a alegria é o antidoto da poesia ??




Reitoria

Temos tudo.
Não precisamos de nada.
Passamos o tempo procurando sentido na vida.
Ou preenchendo palavras cruzadas

Encontramos pouco para não dizer que
não encontramos nada.
A vida é muito estranha
Quanto mais se é feliz,
Mais se apanha.

Em nosso tempo todas as causas foram perdidas.
Estão vencidas pelo prazo de validade.
Não há mais ideologia, mas sobra vitalidade.
E não há limites e sobra brutalidade.

E de vez em quando quando chega o verão.
Quando o ócio é em demasia.
Só para mostrar como somos jovens
Invadimos a reitoria.





Idéias

Todas as minhas idéias
São brilhantes.
Antes de colocá-las no papel

Entre minha cabeça e o papel
Sempre existe um copo de vinho.

E algo se perde neste curto caminho.

Talento

Eu tenho um talento incrível
Para fazer inimigos.
É só perguntar para meus filhos.
É só perguntar para meus amigos.



Perdido

Não encontrei até agora
De quem herdei o meu Gênio ruim.
A minha irritabilidade.
O meu nervosismo.
A minha má educação.
Meu pai diz que foi da minha mãe.
Minha mãe diz que foi do meu pai.

Casa Amarela

Minha casa é amarela.
Tem um belo jardim.
Tem um portão eletrônico.
E um sistema de vídeo.
Apesar do sol colorido.
E da casa amarela.
Do verde brilhante do capim.
Do belo jardim.
Pela Câmera de vídeo.
Somos tudo preto e branco.


Um latido

De madrugada acordei com um latido.
Era um latido abafado.
De muito longe me parecia.
Era um latido forte, mas sofrido.
Fiquei a pensar.
Por que será o latido do animal ?
Será fome ?
Será frio ?
Faz muito frio neste inverno de São Paulo.
Estará preso em uma corrente de ferro grosso e impossibilitado
de se proteger ?
Será que algum homem maldoso e bêbado lhe ameaça ?

Não sei.

Só sei que a dor do animal não é de amor e de saudade.

Pois quando sofre de amor ou de saudade o animal
Uiva.

Uiva.
Uiva.
Uiva tanto que parte o coração.