Depois de uma semana com gripe e febre de 40 graus. Depois da visita do Papa ao nosso Brasil varonil, me retornou, não sei porque, a vontade de ler poemas.
Peguei aquela coletânea básica dos “Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século” seleção do Italo Moriconi e comecei a ler. Havia me esquecido de como é bom ler poemas.
Os poemas nos levam a caminhos que não esperávamos e interesses que nem a alma reconhece.
Na juventude ler poemas era a minha grande diversão. Drummond, João Cabral de Melo Neto, Haroldo e Augusto de Campos e todo o repertório concretista desde Augusto dos Anjos a Pedro Kilkery terminando em Paulo Leminski. Todos alicerçados no curso de letras da Puc que tinha como Diretor o Décio Pignatari.Curso logo abandonado.
Muito antes disso com os meus doze e treze anos vivia com o Casimiro de Abreu e Fagundes Varela debaixo dos braços. Era uns dos poucos livros que tínhamos em casa.
O tempo passa e esse hábito foi perdido. Nenhum poema eu guardo na memória só a sensação que eles me causaram.
Logo depois comecei a admirar as letras das músicas. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Vinicius de Moraes, o pessoal do Clube da Esquina liderado pelo Milton Nascimento e o grande Beto Guedes. Beto Guedes foi o mais próximo que cheguei do Rock and Rool.
E por mais que eu digo não gostar de Mpb e achar algumas letras de mau gosto e ultrapassada, confesso que estou impregnado destas letras musicais e me escuto cantarolando algumas delas, no banheiro, mesmo tendo um bom tempo sem escutá-las.
Faz parte do meu corpo, assim como faz parte a educação religiosa judaíco-cristã que todos nós adquirimos.
Quando essa geração envelheceu, eu sem novidades para alimentar a minha curiosidade fui desembocar no velho samba brasileiro. Passei a admirar as letras do Noel Rosa ( que continua sendo o maior ) passando por Lamartine, Almirante, Cartola, Carlos Cachaça, Monsueto, Nelson Sargento e vários outros que me foge a memória.
Hoje, bem, hoje tudo foi esquecido. Como se eu fosse outra pessoa.Só me ficou a recordação e a certeza que o Brasil poderia ter sido, mas não foi.
Segue aqui um poema do Francisco Alvim que reflete nossa época atual apesar da História ser Antiga.
História Antiga
Na época das vacas magras
Redemocratizado o país
Governava a Paraíba
Alugava de meu bolso
Em Itaipu uma casa
Do Estado só um soldado
Que lá ficava sentinela
Um dia meio gripado
Que passara todo em casa
Fui dar uma volta na praia
E vi um pescador
Com sua rede e jangada
Mar adentro saindo
Perguntei se podia ir junto
Não me reconheceu partimos
Se arrependimento matasse
Nunca sofri tanto
Jogado naquela velhíssima
Jangada
No meio de um mar
Brabíssimo
Voltamos agradeci
Meses depois num despacho
Anunciaram um pescador
Já adivinhando de quem
E do que se tratava
Dei (do meu bolso) três contos
É para uma jangada nova
Que nunca vi outra tão velha
Voltou o portador
Com a seguinte notícia
O homem não quer jangada
Quer um emprego público.

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