segunda-feira, 28 de maio de 2007

O Centro

Meu primeiro emprego foi como empacotador de uma farmácia no centro de São Paulo. Hoje essa região é conhecida como Cracolândia.Lugar abandonado pelo poder público onde o comércio de drogas é executado na luz do dia.

Foi lá que aprendi a comprar o meu desodorante e adquiri o hábito por perfumes. Meu primeiro emprego foi aos 14 anos.

Tinha uma vida sacrificada. Morava longe, a condução era difícil e cansativa.Entrava as 8:00 horas, mas não podia perder o ônibus às 6:00 da manhã.

Este local foi a minha primeira janela para o mundo. Foi onde vi o primeiro Gay, Lésbica, adúlteras e golpistas de toda espécie.

E foi neste emprego que aprendi a gastar tudo que ganhava. O comércio era diversificado com muitas lojas e livrarias, além, é claro, de lanchonetes, nas noites de sexta-feira, a Casa das Batidas foi onde tomei meu primeiro pileque.

Chegava em casa às 23:00 horas. depoi de sair do Colégio.Tomava meu banho, fazia um prato e corria para cama com um Jorge Amado em mãos.


Foi nesta época que me apeguei ao centro de São Paulo e faço visitas nesta região sempre que posso.Faço meus passeios nas galerias, vou a biblioteca Mário de Andrade, freqüento o centro velho e nunca deixo de passar pelos sebos da cidade.São vários e muito diversificados.

Sempre sonhei em ter um apartamento naquela região. Acabei comprando, mas não morei.

Freqüentei o Bexiga, na época que o Bexiga representava o que hoje representa a Vila Madalena.

E sempre que podia ia a um bar que hoje não existe mais, O Redondo, bar que era freqüentado por artistas de teatro da época.

Os melhores cinemas estavam no centro.Não havia Shopping, ainda, e nem Macdonald’s.

Ali, produziu-se os filmes Pornô que foram batizados como filmes da Boca do Lixo.Estávamos em plena ditadura e com a cultura e o cinema censurado só nos era permitido falar em sexo.Estes filmes eram a alegria da garotada e fizeram muito sucesso na época.Mas, mesmo assim, os cinemas estavam começando a perder espaço para os Teatros de Sexo Explícito como a maioria se tornou a posteriori.

Aquela época o centro não era decadente como hoje, mas já apresentava sinais.

E de lá para cá, só piorou.

Quem conheceu a cidade nesta época sabe do que estou falando.

domingo, 27 de maio de 2007

Frase do dia.

Brasil ? Fraude explica.

Carlito Maia

sábado, 26 de maio de 2007

Machado de Assis


Outro grande personagem do Brasil.Com exceção de alguns intelectuais letrados poucos brasileiros conhecem seu valor.

Dos seus livros aproveitei quase tudo. Da sua vida quase nada.Nunca consegui ter sua disciplina.

Machado de Assis foi um menino pobre e mulato em uma sociedade escravocrata, sempre teve uma vida dura e sem recursos, mas com disciplina espartana se tornou um ótimo funcionário publico , estudou línguas, escreveu para jornais, manteve uma vida social e cultural ativa tornando-se o maior romancista do Brasil.

Se fossemos um país sério o seu exemplo de vida seria lembrado repetidas vezes em sala de aula. Maior exemplo para os nossos meninos não há.

Paulo Francis


Acompanhei a carreira do Colunista Paulo Francis até a sua morte.Li quase tudo que escreveu, inclusive os romances.

Desde suas crônicas no Pasquim, passando pela Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo tive nele a minha maior influência.Nos últimos anos no Manhatan Connection me deliciava com a sua imagem destemperada e doce ao mesmo tempo.

Quando ele citava um autor, um livro, e se isso estivesse disponível no Brasil eu corria para comprar.Se dispunha de dinheiro é claro.Nesta época faltava dinheiro até para o cafezinho no boteco da esquina.

Paulo Francis formou uma geração de jornalistas e sempre foi um divulgador de idéias polêmicas que dividia a cena nacional do Brasil.

Diogo Mainardi, Daniel Piza e Wagner Carelli receberam apoio e sofreram influência do Francis.

Aliás, onde anda Wagner Carelli ?

Morte anunciada.

Meu pai tem tumor na bexiga. O tumor é bem pequeno.Coisa minúscula.E parece fácil a cirurgia.

O drama é que o homem não quer se tratar. Se recusa enfaticamente.Coisa louca.Fui ao médico procurar ajuda e não encontrei.

O médico me apresentou um discurso muito liberal. Afirmou que meu pai não quer se tratar e quem ninguém poderia obrigá-lo a isso.

Fiquei com o queixo caído.Não queria obrigá-lo, apenas orientá-lo do que era melhor.

Sem ação para qualquer movimento.

O que era uma solução passou a ser um tormento.

Meu pai selou sua vida antes da época.

Entregou-se antes mesmo da batalha.

Civilização

Não existe nada mais triste que passear na casa de um parente ou amigo e não encontrar nenhum livro.Nenhum solitário livro.

Nenhum Drummond.Nenhum Jorge Amado.Nenhum José de Alencar.Nenhum livro básico da literatura brasileira.

Coisa comum em qualquer prateleira.

Casa sem flor é casa sem amor já dizia minha mãe.

Casa sem livros é casa sem civilização já dizia o papai aqui.

Nada Especial

Ontem foi um dia normal
Hoje foi um dia normal.
Amanhã será um dia normal
Apesar de ser Natal

Minha Filha

Domingo é dia de partida.
Minha filha retorna para sua casa
Fiz compras, preparei o almoço.
Tomei um vinho.
O sono chega, mas não posso dormir.
Levo a Carol na rodoviária
Chove a cântaros em São Paulo
Fico preso no carro sem poder sair
A Carol corre e entra no ônibus
Esquecendo de me dar um beijo.
Eita vida besta, meu Deus.

O tempo

Quando somos mais jovens a vida é possível.
Quando somos mais jovens o Brasil é possível.
Quando somos mais jovens a amizade é possível.
Revendo o passado com saudades
Percebemos que o melhor remédio para a angústia
São 30 anos a menos.
Mas isso não é mais possível.

Shine, Chet Baker e Nelson Freire

Shine


A trilha do Filme Shine é outro som que não me canso de ouvir nestes anos. Assisti ao filme que me comoveu muito.Comprei o CD e fiquei louco.Lá você encontra Chopin , Rachmaninoff, Schumann, Vivaldi com Glória, e Liszt.

Fico sem fôlego para mais nada. Coisa divina.



Chet Baker


Chet Baker – 1959 Milano Sessions, outro que não canso de ouvir.



Nelson Freire.

O que é o poder da mídia. Eu não conhecia o Nelson Freire antes de ver o filme do Valtinho Sales ( que é muito petista para o meu gosto ) fui assistir porque queria conhecer o pianista.Fiquei abobado.Sai do cinema apaixonado pelo músico e hoje tenho quase todos os seus Cds.Escuto com devoção religiosa.Recomendo o filme e os discos, claro Clóvis.

Urubu











Estou na fase do cd URUBU. Ando meio melancólico e as músicas refletem este temperamento.

Gosto muito deste disco, gosto do Jobim. Não conheço os discos que ele lançou nos EUA. Mas esse me parece tão perfeito que se existir outro melhor deve ser um diálogo direto com Deus.

É de uma delicadeza, harmonia e sensibilidade que me faz corar.

Parece música produzida para cinema.

Vejo imagens de um mar do Rio de Janeiro, vejo a natureza desnuda.

Como faz falta o carisma, o talento e a música de Antonio Carlos Jobim.

Como faz.

Um amigo Professor.

Ontem sai com um amigo professor. Há tempos não o via.Desfrutávamos de uma boa amizade e muitas coisas em comum na juventude.Agora, somos estranhos um para o outro e não por culpa dele que continua o mesmo.Mas, sim, por minha culpa que mudei muito.

Ele continua com as mesmas e velhas idéias dos nossos pais.

Continua recitando os mesmos dogmas de esquerda, venerando a imagem de Marx e sabendo cada vez menos.

Criou-se um trauma entre nós. Ele não me entendia e eu não me conformava.

Ele acredita que continuamos na mesma luta entre esquerda e direita, ele acredita ser um explorado pelas elites, acredita que para mudar a sua situação vai precisar mudar o mundo todo.

O que faz uma pessoa continuar a mesma 30 anos seguidas. Sem perceber as transformações do mundo?

Tenho a mais plena convicção que se fossemos testar todos os nossos professores das escolas públicas e particulares poucos, muito poucos permaneceriam no cargo.

Lendo uma notícia hoje na revista Veja, o dono da Livraria Cultura dizia ter dificuldade de selecionar balconistas para a sua loja. É o caso de dizer: Se ninguém lê como fazer para vender livros adequadamente?

Se a Livraria Cultura tem dificuldade para selecionar balconistas imagine como será selecionar professores de história.

Estamos de mal a pior.

Gripe, Febre e Poemas


Depois de uma semana com gripe e febre de 40 graus. Depois da visita do Papa ao nosso Brasil varonil, me retornou, não sei porque, a vontade de ler poemas.

Peguei aquela coletânea básica dos “Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século” seleção do Italo Moriconi e comecei a ler. Havia me esquecido de como é bom ler poemas.

Os poemas nos levam a caminhos que não esperávamos e interesses que nem a alma reconhece.

Na juventude ler poemas era a minha grande diversão. Drummond, João Cabral de Melo Neto, Haroldo e Augusto de Campos e todo o repertório concretista desde Augusto dos Anjos a Pedro Kilkery terminando em Paulo Leminski. Todos alicerçados no curso de letras da Puc que tinha como Diretor o Décio Pignatari.Curso logo abandonado.

Muito antes disso com os meus doze e treze anos vivia com o Casimiro de Abreu e Fagundes Varela debaixo dos braços. Era uns dos poucos livros que tínhamos em casa.

O tempo passa e esse hábito foi perdido. Nenhum poema eu guardo na memória só a sensação que eles me causaram.

Logo depois comecei a admirar as letras das músicas. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Vinicius de Moraes, o pessoal do Clube da Esquina liderado pelo Milton Nascimento e o grande Beto Guedes. Beto Guedes foi o mais próximo que cheguei do Rock and Rool.

E por mais que eu digo não gostar de Mpb e achar algumas letras de mau gosto e ultrapassada, confesso que estou impregnado destas letras musicais e me escuto cantarolando algumas delas, no banheiro, mesmo tendo um bom tempo sem escutá-las.

Faz parte do meu corpo, assim como faz parte a educação religiosa judaíco-cristã que todos nós adquirimos.

Quando essa geração envelheceu, eu sem novidades para alimentar a minha curiosidade fui desembocar no velho samba brasileiro. Passei a admirar as letras do Noel Rosa ( que continua sendo o maior ) passando por Lamartine, Almirante, Cartola, Carlos Cachaça, Monsueto, Nelson Sargento e vários outros que me foge a memória.


Hoje, bem, hoje tudo foi esquecido. Como se eu fosse outra pessoa.Só me ficou a recordação e a certeza que o Brasil poderia ter sido, mas não foi.

Segue aqui um poema do Francisco Alvim que reflete nossa época atual apesar da História ser Antiga.


História Antiga


Na época das vacas magras
Redemocratizado o país
Governava a Paraíba
Alugava de meu bolso
Em Itaipu uma casa
Do Estado só um soldado
Que lá ficava sentinela
Um dia meio gripado
Que passara todo em casa
Fui dar uma volta na praia
E vi um pescador
Com sua rede e jangada
Mar adentro saindo
Perguntei se podia ir junto
Não me reconheceu partimos
Se arrependimento matasse
Nunca sofri tanto
Jogado naquela velhíssima
Jangada
No meio de um mar
Brabíssimo
Voltamos agradeci
Meses depois num despacho
Anunciaram um pescador
Já adivinhando de quem
E do que se tratava
Dei (do meu bolso) três contos
É para uma jangada nova
Que nunca vi outra tão velha
Voltou o portador
Com a seguinte notícia
O homem não quer jangada
Quer um emprego público.

Ler ou escrever ?

Toda a vez que passo uns minutos escrevendo fico me perguntando se não era melhor perder meu tempo lendo livros.

Acredito que o ato de escrever é um dom que só alguns se permitem. E, com certeza, não fui dotado deste dom.

Mas, mesmo sabendo disso estou criando um blog. Sei que não tenho nada a dizer que valha a pena. Sei que não tenho nenhuma idéia nova.Mas essa tentativa seria uma terapia, isto é, mais uma forma de combater a ansiedade e colocar a minha vida preto no branco.

Falar de poesia, falar de livros, falar de política, sabendo ter gente mais capacitada que eu é uma temeridade, mas, fazer o que, se viver no Brasil e viver em São Paulo é uma temeridade, como evitar este confronto ?

O único consolo é que existem muitos blogs, que eu conheço, que nada acrescentam, um a mais, um a menos, não altera o valor do dólar.

Mãos na massa.